Friday, August 05, 2011




"(...)As mãos nos bolsos eram tão só a forma mais confortável que tinha para caminhar naquela noite.



Perplexo com a minha própria tranquilidade, para com o facto de andar por ali, a altas horas, naquela longa avenida iluminada pela gigantesca e numerosa publicidade nos edifícios que facilmente identificam Times Square lá mais ao fundo, decidi parar a meio para beber um copo.
Aqueles quarteirões da cidade têm sido considerados como os mais seguros do mundo, pelo menos desde daquele triste mês de Setembro, mas ainda assim surpreendia-me o meu à-vontade com que ali passeava.



Parei num bar porque vi alguém conhecido e porque a música convidava a entrar, apesar de bem diferente da que ouvira horas antes no Blue Note, era ritmada e preenchida com o tilintar das pedras de gelo nos copos de whisky que iam saindo de trás do balcão, entre decotes ousados, corpos suados. Ao lado bar de strip e à sua porta vista privilegiada para uma série de “silhuetas”, tacão alto, corpos aconchegados por vestidos curtos de fazer qualquer um perder a cabeça se arriscar percorrer os seus corpos com o olhar… Um cigarro? É melhor… Olhos novamente no bar inicial e, subitamente, surge uma jovem que me pede um isqueiro entre um pretexto para dois dedos de conversa.



Raio do “inglês”, que já não falo aos anos, só me lembrava a vacina do tétano de tão enferrujado que estava para iniciar uma conversa… Alguma coisa se conseguiu perceber, afinal ainda ficámos ali para mais uns quantos cigarros que se iam fumando entre luzes, olhares, conversas desprendidas de objectivos concretos. Interrompe-se a conversa com um até já, como se alguma vez mais a fosse ver, e apanho um táxi para, sem qualquer destino concreto, percorrer a cidade enquanto não me apetece ir para a 6ª avenida.



Recordo o voo do dia anterior, de helicóptero pelo Grand Canyon, a estadia no Encore – Las Vegas, a noite louca da XS e no Casino onde o 4 me garantiu umas horas bem passadas e algumas notas no bolso para o desconforto de alguns croupiers. Fui parar à Pacha na 46th Street, onde com um amigo fiquei ao balcão a beber um copo e a apreciar um conjunto de personagens que subitamente fizeram-me sentir dentro de um filme tipo “Velocidade Furiosa”, com o meu metro e oitenta e tal, não deixava de ser dos mais pequenos que lá andava, numa estranha e nada proporcional escala Tuga-Americano.



Entre cigarros que ia fumando na varanda exterior a ver carros empilhados numa estranha forma de estacionar, percebi que estava fora do contexto e com algumas saudades de Portugal. Trinta dólares mais pobre, acabei por ir para o hotel a pensar como me apetecia beber um bom tinto português apesar do chileno, que tinha bebido ao jantar, não ser nada mau. (...)"